O projeto Fomento à Cultura Ancestral em Florianópolis chega ao fim após seis meses de intensa mobilização. As ações ocorreram na Casa de Passagem Indígena e Ponto de Cultura Goj Ta Sá. Ao longo desse período, o território viveu um tempo abundante, marcado por encontros contínuos, escuta profunda e construção coletiva. O projeto encerrou suas atividades no domingo (14) com uma intensa agenda cultural, que reuniu lideranças dos povos indígenas, autoridades locais e apoiadores.
Durante o período de execução do projeto, mais de 1000 pessoas passaram pelo território. Entre elas, estavam crianças, educadores, visitantes, artistas e apoiadores. Ao longo das atividades, o público participou de vivências educativas, ações culturais, visitas guiadas, feiras e rodas de conversa. Assim, esses processos reafirmaram a presença indígena no coração da cidade.
Com o encerramento do projeto, se cristaliza a certeza de que, mais do que executar uma agenda de ações, o trabalho consolidou uma ideia fundamental: a cultura ancestral não é conteúdo complementar. Ao contrário, ela é base para pensar educação, cidade e futuro.
Mini Museu da Cultura Viva: eixo do Fomento à Cultura Ancestral em Florianópolis
O projeto estruturou-se a partir da criação do Mini Museu da Cultura Viva Goj Ta Sá. Ao longo do segundo semestre de 2025, cinco painéis foram concebidos e instalados no território. Esses painéis abordam diferentes camadas da história indígena na ilha de Meiembipe.

Os temas percorrem desde a presença ancestral até as lutas contemporâneas por permanência, reconhecimento e direito ao território. O quinto e último painel foi lançado no sábado (13), como parte da programação da Feira da Resistência Indígena. A obra homenageia os Guardiões e Guardiãs da Goj Ta Sá. São pessoas que sustentaram, ao longo dos anos, a luta pela Casa de Passagem, muitas vezes de forma invisível e silenciosa.
Curadoria indígena e autonomia narrativa
Diferente de museus tradicionais, o Mini Museu não parte de uma curadoria externa nem de narrativas oficiais. Ele foi construído de forma coletiva e participativa. A curadoria foi conduzida pelas lideranças Kaingang, Xokleng e Guarani: Sadraque Lopes, Cacique do Goj Ta Sá; Marcelo Guarani, liderança da Aldeia Tava’í (Canelinha/SC); e Woie Xokleng, liderança da Goj Ta Sá.
Esse modelo reafirma a autonomia dos povos indígenas sobre suas próprias narrativas e conteúdos. Dessa forma, fortalece-se o direito de contar a história a partir de quem a vive. Esse princípio dialoga com o direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Convenção nº 169 da OIT e reconhecido pela Constituição Federal.
Processo formativo e articulação institucional
As lideranças indígenas, em diálogo com instituições públicas e coletivos, construíram os painéis por meio de um processo formativo interinstitucional. O percurso incluiu reuniões formativas e visita técnica ao Museu de Arqueologia da UFSC. Além disso, foram realizadas oficinas participativas de cartografia social.
Nesse processo, integraram-se pesquisas já existentes com mapeamentos e relatos produzidos nas vivências coletivas. Esse diálogo envolveu o IPHAN, o NUDHA/UDESC, o CIMI e o IMMA, além de coletivos culturais e guardiões do patrimônio.
A articulação entre conhecimento técnico e saberes tradicionais resultou na produção de material didático. Esse material apoia a implementação da Lei nº 11.645/2008. Assim, as escolas que visitaram o Goj Ta Sá passaram a contar com subsídios pedagógicos. O conteúdo contribui para o ensino da história e da cultura indígena de forma contextualizada e viva, a partir da experiência territorial de Floripa.
Feira da Resistência Indígena
O projeto articulou suas ações com uma prática já enraizada no território: a Feira da Resistência Indígena. Realizada desde 2021, a feira é fruto da organização das próprias lideranças indígenas. Ao longo dos anos, consolidou-se como espaço de circulação cultural, geração de renda e fortalecimento comunitário.
Durante o projeto, a feira ganhou programações ampliadas. Nesse período, somaram-se apresentações culturais Kaingang e Guarani Mbya, coral indígena, maracatu, brincadeiras para as crianças e manifestações artísticas diversas.
Visitação escolar: educação pela vivência com a terra e a escuta
As visitas guiadas foram parte fundamental do projeto. Ao todo, mais de 400 estudantes participaram das atividades. O público incluiu educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e graduação.
As vivências romperam com o modelo tradicional de aula expositiva. Para viabilizar as visitas, foram distribuídos 132 kg de frutas e, em média, 56 kg de alimentos preparados e compartilhados entre equipe e comunidade.
Inicialmente, o roteiro começava com a recepção no território e a apresentação cultural Kaingang. Em seguida, os grupos participavam de uma conversa interativa sobre a exposição do Mini Museu. Depois disso, percorriam a agrofloresta. Nesse momento, realizavam o plantio de mudas nativas e compartilhavam um piquenique coletivo. Por fim, conheciam a horta, o sistema de compostagem e encerravam a experiência na Casa de Reza.
Nesse sentido, para muitas crianças, esse foi o primeiro contato direto com um território indígena vivo. Não como conteúdo distante dos livros didáticos, mas como presença concreta, contemporânea e urbana. Para os professores, a experiência se consolidou como ferramenta pedagógica potente para a aplicação da Lei nº 11.645/2008.
Assembleia Popular: política feita em roda
O lançamento do quinto e último painel do Museu foi marcado por uma Assembleia Popular. O encontro abriu espaço para a fala das lideranças indígenas. A roda se afirmou como marco político de manifestação, escuta coletiva e reafirmação das lutas dos povos originários.
Além do Cacique Sadraque Lopes, liderança do povo Kaingang e anfitrião do território, participaram Woie, liderança do povo Laklãnõ/Xokleng, e Nhamandu Papá, liderança do povo Guarani Mbya. As falas reforçaram o papel central dos povos indígenas na preservação das florestas, das águas e dos territórios. Ao mesmo tempo, denunciaram as ameaças constantes aos direitos originários.
Em sua intervenção, Woie destacou a relação direta entre a existência dos povos indígenas e a proteção dos bens comuns. Ele chamou atenção para a necessidade de fortalecer os movimentos indígenas diante de projetos de lei que fragilizam direitos conquistados, como as tentativas de institucionalização do marco temporal.
A Assembleia afirmou a memória viva. Não como passado encerrado, mas como força presente. Assim, reafirmou-se o Goj Ta Sá como território político vivo, que dialoga com a cidade sem abrir mão de sua autonomia, espiritualidade e modos próprios de organização.
Impactos que seguem além do projeto
O Fomento à Cultura Ancestral em Florianópolis se encerra formalmente em dezembro. No entanto, seus impactos seguem vivos no território, nas escolas e nas redes comunitárias da cidade. Além disso, o Mini Museu deverá receber novos elementos nos próximos meses. A inauguração está prevista para abril.
Os painéis permanecerão expostos, com possibilidade de circulação por outros pontos da cidade. A Feira da Resistência Indígena seguirá ativa e autônoma em sua agenda. O território mantém, assim, seu papel como espaço de acolhimento, educação intercultural e articulação comunitária.
O projeto foi executado pela Associação Indígena Ponto de Cultura Goj Ta Sá, com apoio da Associação Laboratório Terra Orgânica. A iniciativa contou com recursos de emenda parlamentar da Mandata Bem Viver, por meio da Secretaria Municipal de Licitações, Contratos e Parcerias de Florianópolis. As ações se somam a processos históricos do território, fortalecendo práticas já existentes e ampliando seu alcance.
Por fim, mais do que um balanço positivo, fica uma certeza coletiva. Quando a cidade escuta os povos originários, novos caminhos se abrem para a educação, para a política e para o cuidado com a terra. Meiembipe vive: no passado que sustenta, no presente que resiste e no futuro que se constrói.
Camila Cabrera
Jornalista – MTB 16.528